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MAIS DE MEIO SÉCULO DE TRABALHO E HISTÓRIA

A Master Marine tem uma longa jornada como fornecedora a navios que ultrapassa meio século. Sua história invade décadas e é respeitada por profissionais do segmento em todo o país. Para resgatar essa importante memória, fomos dar um passeio pelo passado com Eugênio Pierotti, seu diretor-presidente. Em entrevista à jornalista Sandra Perruci, ele conta sobre seus 67 anos de atuação no setor e a forte herança do trabalho do pai à frente da empresa MANSUETO PIEROTTI & FILHOS LTDA.

UM LEGADO QUE COMEÇOU EM 1949

Em 1949, o senhor tinha cinco anos. Foi nessa época que o seu pai fundou a Mansueto Pierotti & Filhos Ltd, da qual a Master Marine é sucessora. O que a Mansueto fazia?

Meu pai fundou a Mansueto Pierotti & Filhos Ltda., em Santos (SP), no fundo de uma antiga loja de ferragens. Lá ele guardava peças e alimentos para fornecer aos navios. O nome fantasia era Fornecedora Santista de Navios, depois adotou o nome Mansueto Pierotti que era o que representava a empresa na inscrição estadual.

A primeira vez que entrei lá foi em 1957. Eu tinha 13 anos. Meu primeiro trabalho foi colocar barbante no furo das etiquetas que eram amarradas nas caixas que transportavam as mercadorias para bordo. Elas tinham o logo da Mansueto Pierotti e individualmente também tinham a descrição CABIN, DECK e ENGINNE. Isso era para facilitar a tripulação na identificação para qual setor do navio as caixas eram destinadas. Comecei a conhecer e separar os produtos e as mercadorias que seriam fornecidos aos navios.  Aprendi também a datilografar e conhecer o centro comercial de Santos onde existiam escritórios de Armadores, Agencias de Navegação e todos os órgãos federais que têm até hoje ligação com a atuação de um porto.

Com 14 anos já tinha condições de entrar no porto, com uma credencial da Alfândega. O cais de Santos trabalhava do armazém 1 ao 25. O cais do saboó, na época, era onde os navios de gás e petroleiros atracavam. E na Ilha Barnabé atracavam navios com gasolina, como permanece atualmente. Nessa época também era permitido o fundeio de navios ao largo dentro do porto. Esse serviço de fornecimento aos navios era executado por lanchas que ficavam atracadas no cais em frente à Alfandega de Santos e eu quase todos os dias levava mercadorias aos navios da FRONAPE-Frota Nacional de Petroleiros. Eu comecei a ir a bordo porque não tinha problema em ser menor naquele tempo. Eu ia com os funcionários do meu pai como aprendiz, carregava material e fazia um pouco de tudo. Com 16 anos já tinha mais autonomia, representava a empresa e comecei a aprender muito também com navios argentinos e uruguaios, que a Mansueto Pierotti fornecia com muita frequência.

Sempre fui muito expansivo na parte comercial e operacional, gostava do meu trabalho e ao mesmo tempo me dava muito bem com os tripulantes e oficiais de bordo. Mas foi com os navios da PETROBRÁS-FRONAPE que dediquei a maior parte da minha vida profissional. Meu atendimento personalizado à PETROBRÁS me deu condições de atender seus navios com prioridade e pioneiros nos portos de São Sebastião, Angra dos Reis e São Francisco do Sul. Quando seus terminais petrolíferos foram inaugurados (TEBAR, TEFIG e TEFRAN), recebi convites especiais e individuais vindo da Presidência da República do Brasil e da Presidência da PETROBRÁS, para participar das inaugurações oficiais desses terminais. Participei de todas.

CRESCENDO COM A EMPRESA

A partir daí o senhor cresceu junto com a empresa? 

Quando você é dono do negócio, mesmo contando com a ajuda de seus colaboradores, começa a enxergar de uma maneira diferente e busca sempre projetar a sua empresa. Geralmente você não se preocupa com o horário de sono, de almoço, o seu descanso, porque está em busca de um aprimoramento. Minha vida nesta área sempre foi assim, de muito envolvimento e pouco tempo. E meu pai também delegava muitos poderes para que pudesse decidir.

Eu lembro que, quando eu comecei na empresa meu pai era Presidente do Lions Club, de um soccer team e membro de outras entidades de servir na cidade de Santos. Ele era absorvido demais por elas. Como eu já estava aprendendo e me desenvolvendo bem na Mansueto Pierotti, comecei a tentar suprir as dificuldades que ele tinha na parte operacional. De aprendiz passei a ser encarregado e isso fez com que assumisse novos desafios. Com 18 anos já consegui minha habilitação profissional para dirigir caminhões. Semanalmente, ia dirigindo nosso caminhão para fornecer navios em São Sebastião. Até hoje faço isso por hobby ou se necessário. Mesmo tomando bronca dos filhos, já peguei o caminhão em algumas situações para atender navio em São Sebastião, onde está nossa filial.

 


VALORES, EXPERIÊNCIA E PAIXÃO PELO MAR

Dá para perceber que o senhor se emociona com essas memórias. O que o trabalho na Mansueto Pierotti & Filhos Lta. contribuiu para a construção de valores e para a formação do ser humano Eugênio?

Meu pai teve muita dificuldade financeira para se fixar no setor e isso se tornou um desafio para mim: eu tinha que ajudar o meu pai. Mesmo sendo muito jovem, comecei a ir em bancos e fui pessoalmente negociar com algumas empresas que vendiam pra nós e queriam se transformar em concorrentes. Eu lidava com a contabilidade, aprendia a burocracia da empresa e essas experiências foram me dando uma grande visão do negócio.

Isso ajudou muito no meu amadurecimento porque a vida vai te colocando desafios e você tem que assumir. Eu sempre fui um péssimo aluno na escola. Repeti três vezes. Estudava sempre na véspera de prova e rezava pra passar. Mas no momento em que comecei a trabalhar com meu pai, mesmo na parte operacional, eu sempre apliquei a minha força competindo comigo mesmo no sentido de aprender o trabalho e ser o melhor de todos. Passei a estudar o meu cliente, saber tudo sobre a companhia que nos dava a preferência do negócio, quando foi fundada, quem era o presidente, quem era o comandante, chefe de máquinas, representante na cidade, etc.

Quando eu subia a bordo, conversava um pouco, eles percebiam que eu conhecia de fato as pessoas e a empresa na qual trabalhavam e, principalmente, era um exímio conhecedor dos artigos e necessidades que um navio enfrentava para seguir sua viagem.

O LADO HUMANO DO SHIPPING

E de onde veio o amor pela Marinha do Brasil e a vida dos homens do mar?

Em 1972 foi fundada a Sociedade Amigos da Marinha – a Soamar e meu pai acabou se aproximando da entidade que, inclusive, tempos depois, presidiu aqui em Santos. Como fazia em tudo, meu pai procurou aproximar também os filhos e assim, em 1980, comecei a participar de eventos que se tornaram cada vez mais frequentes e a ter contato com muitos oficiais da Marinha do Brasil. Já fui Relações Públicas por dez anos, Vice-Presidente por seis anos, Presidente por seis anos. Hoje estou novamente como 2º Vice-presidente da Soamar-Santos. Já são 45 anos de atividades. Eles não me deixam sair. (Risos).

Trabalhando com navios você tem contato com muita gente, em especial com a tripulação. As amizades surgem. Os navios chegam e você está lá. Partem e quando retornam você está lá de novo. Muitas vezes a tripulação fica meses longe do convívio familiar e é você que acaba ouvindo histórias, compartilhando a vida.

Isso é mais forte na Marinha Mercante…

É sim. Eu penso que estes profissionais que atuam a bordo, e navegam para portos distantes, sofrem uma carência grande porque estão mais longe da família. Hoje mudou muito a dinâmica, mas antigamente as viagens eram longas e não tinha comunicação como atualmente. Não havia celular, whatsapp, internet. Os oficiais nem sempre conseguiam ir à terra com facilidade. As pessoas que viam eram o pessoal da alfândega, da saúde do porto, da agência e, no meu caso, da fornecedora de navios. Então, tinham contato com poucas pessoas.

E era você quem ouvia as histórias do temporal que pegaram no mar, do filho que nasceu e ainda não viu, do pai que faleceu e não pôde ir se despedir. Eu cheguei a chorar algumas vezes a bordo.

PASSANDO O BASTÃO

Sua vida toda foi marcada por este segmento, mas hoje o senhor está vendo a nova geração assumindo os negócios, tendo passado também pelo período de grande aprendizado. Qual a mensagem que fica?

É muito bom ver os filhos assumindo o trabalho da gente. Temos hoje novos desafios e enfrentamos mudanças, mas eu acredito que é sempre importante olhar para as experiências do passado. Ajuda na tomada de decisões. As velhas lições continuam valendo.

Poucos sabem, mas a Master Marine nasceu há mais de 60 anos como parceira da própria Mansueto Pierotti & Filhos Ltda. Foi inspirada no meu pai e o nome é uma homenagem aos amigos que conquistamos neste segmento. Ela foi criada em 1965 e desde 2013, quando a Mansueto Pierotti & Filhos Ltda. deixou de existir, assumiu toda a prestação de serviço como fornecedora a navios. Por isso, completamos 15 anos de atividade, mas nossa história ultrapassa décadas.

RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

E já é uma empresa premiada…

Essa coisa de premiação veio em 2015, quando recebemos da ISSA o troféu Longevity Award. A ISSA é uma associação internacional que representa aproximadamente 2.000 fornecedores a navios em todo o mundo. Celebrou o seu Jubileu de Diamante e um grande evento em Cingapura. Estivemos entre grandes empresas com mais de 25 anos que se destacam no segmento. Meus filhos Flávio e Fernanda foram lá receber o troféu que é um orgulho para nós.

Publicado em 01/10/2018
Atualizado em 26/03/2025